Raul Brandão was a prominent Portuguese writer and playwright, known for his profound exploration of the human condition and the Portuguese soul. Born in a small town in Portugal, he initially pursued a career in the military and later turned to literature, where he found his true calling. His works often reflect his experiences and observations of life, infused with a deep sense of melancholy and introspection. Brandão's writing is characterized by its lyrical style and philosophical depth, making him a significant figure in early 20th-century Portuguese literature. Among his most notable works are 'Os Pescadores' (The Fishermen), which delves into the lives of fishermen in the Azores, and 'A Farsa' (The Farce), a play that critiques societal norms and human folly. Brandão's ability to capture the essence of Portuguese identity and the struggles of ordinary people has earned him a lasting place in literary history. His influence can be seen in the works of later Portuguese writers, and he is often celebrated for his contributions to modernist literature, blending realism with poetic expression. Brandão's legacy continues to resonate in contemporary discussions of Portuguese literature and culture.
“Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmo gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adere. Há dias em que não distingo estes seres da minha própria alma; há dias em que através das máscaras vejo outras fisionomias, e, sob a impassibilidade, dor; há dias em que o céu e o inferno esperam e desesperam. Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê-la vir à supuração.Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos séculos, e os seres que passam meras sombras. Tudo isto me pesa e pesa-me também não viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto. A árvore cumpre, o bicho cumpre. Só eu me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituar à aquiescência e à regra?””
“A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.””
“Ilusão, mentira, estúpido? Mas eu é que faço a verdade e a mentira. Eu é que a crio à custa de dor. Dou-lhe o meu bafo e a minha alma. Deus cria-me a mim - eu crio Deus. Um verdade pode ser abjecta, uma mentira pode construir outro mundo - outro Universo - outro céu.””