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Olhar Além

Olhar Além2015

Marta de Camargo Fernandes, Anna Fresu

About this book

A origem insular de Anna Fresu transparece nessa coleção de histórias que põem o olhar nos “esquecidos do mundo”. Histórias em que a “saudade” de sua ilha se mescla com a “saudade” portuguesa, a que a sua vida pessoal a acercou antes mesmo de chegar em Moçambique onde viveu por onze anos.Foi naquela terra distante, massacrada da guerra, que se empenhou na ajuda humanitária através de projetos sociais de educação e cultura. Testemunha dessa experiência é o primeiro conto “A Judite ficou sozinha” onde Anna aparece junto às vendedoras do mercado as quais se dirige nos raros momentos de repouso de um pesado e cansativo trabalho cotidiano.Uma empatia com a terra e a gente africana que se traduz na capacidade literária de trazer uma vida na vida de cada um de nós; de refletir-se na solidão de quem te passa ao lado por acaso o de quem encontres todas as manhãs. São vidas diferentes, mas que tem em comum um destino de marginação: infâncias infringidas, histórias de amor eternas ou nunca começadas, solilóquios que tentam o dialogo. Protagonistas homens também, mas principalmente mulheres que enfrentam as dificuldades da vida com a inocência de quem se vê mãe antes ainda de virar mulher, com a dignidade de quem, pisoteado, usa as próprias forças interiores.Os contos se desenvolvem em períodos curtos e ritmados ou se lançam em uma crónica amarga e desencantada, misturando mitos e velhas histórias narradas pelas anciãs das aldeias a pedaços de vida cotidiana. Eis então que emergem miseráveis internos de casas com os tetos de lata, sandálias de plástica e vestidos pobres, lavados e lavados ao infinito para manter um digno decoro da pessoa, cansativas horas de trabalho nos campos ou nas fábricas, aldeias dissipadas e ambientes destruídos, atitudes semi-coloniais, principalmente em relação às mulheres, mantidas por quem deveria contribuir à paz e ao desenvolvimento.Mas se notam também grandes locais e cafés cheios de gente onde se bebe, se dança e se ouve a música, panoramas e colores de tirar o ar pintados de laranja e saudade, mares e ressacas que cantam a eterna canção.De vez em quando se insinuam os versos de Craverinha, poeta mito de Moçambique junto com o orco Xitukulmukumba, pesadelo das crianças ou as lágrimas da jovem Naika que chora a perdida do seu Nuamberi.O tema do “sul do mundo” é presente também como o “sul do mundo que se move”: então aparece o verdureiro paquistanês, a garota africana fugida dos venenos da cultivação intensiva de rosa em Kenya, mas também o homem da Sardenha que passa o tempo nos bancos fingindo ler o jornal, que voltou em Itália depois de anos de emigrado em Argentina em busca de fortuna, a quem resultam incompreensíveis as atitudes xenófobas de alguns italianos.A sua é uma prosa poética que sabe traduzir em imagens o desconforto dos “esquecidos”, dos pobres ricos somente de esperança, de quem sabe viver e esperar, dos desiludidos aos quais a vida parece não mais tolerável. A coleção vê nos últimos contos prevalecer a experiência pessoal da autora: a hospitalização, as  horas de imobilidade guardando uma cidade na verdade desconhecida, a figura da mãe morta evocada, a imagem da personificação da morte com os tratos de literatura visionaria e lírica tão querida à nossa escritora.

Details

First published
2015
OL Work ID
OL40533816W

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Book data from Open Library. Cover images courtesy of Open Library.